segunda-feira, 17 de março de 2008

Do culto ao teatro: a origem da Tragédia


O teatro ocidental teve origem nos festivais religiosos gregos em honra ao deus Dioníso, a partir do século VII a. C. Muito provavelmente, por volta do século VI a. C., surge aquele que é considerado o primeiro ator: Téspis. Téspis era um corifeu que se destacou do coro e, ao avançar até a frente do palco e declarar ser o próprio deus Dioníso, travou um primeiro e fundamental diálogo entre um ator e o coro. O teatro, nesse primeiro momento, limitava-se a uma série de odes e danças em torno da imagem de algum deus, na maioria das vezes, o próprio Dioníso.

Para honrar os deuses, o povo se reunia no grande semicírculo do teatro. Com cantos ritmados, o coro rodeava a orquestra: “Vem, ó Musa, unir-se ao coro sagrado! Deixa nosso cântico agradar-te e vê a multidão aqui sentada! Estes hinos em forma de verso são de As Rãs, de Aristófanes. Precisamente ele, um “zombador incorrigível”, invocou novamente, em sua comédia, o poder da tragédia grega clássica, cuja idade de ouro durou aproximadamente um século.

As tragédias, de uma maneira geral se utilizam de temas homéricos, os personagens presentes nas tragédias, estão juntos ou separados, todos presentes obra épica do poeta cego Homero, que deixou dois grandes registros histórico/ficcionais sobre a guerra de Troia e sobre o regresso do herói Ulisses à sua terra depois de vencida a guerra de Tróia. São, respectivamente: Ilíada e Odisséia, - o herói Ulisses, também é conhecido por Odisseu -. Escritas, ambas, por volta do século VIII a.C.
Duas correntes foram combinadas, dando à luz a tragédia: uma delas provém do legendário menestrel da Antiguidade remota, a outra dos ritos de fertilidade dos sátiros dançantes. De acordo com Heródoto, os coros de cantores com máscaras de bode existiam desde o século VI a.C. Esses coros originalmente cantavam em homenagem ao herói Adrasto, o celebrado rei de Argos, e Sícion, que instigou a expedição dos Sete contra Tebas - uma das sete peças restantes de Ésquilo. Por razões políticas, Clístenes, tirano de Sícion desde 596 a.C. transferiu tais coros de bodes para o culto a Dioniso, o deus favorito do povo da Ásia.
Dioniso, a encarnação da embriaguez e do arrebatamento, é o espírito selvagem do contraste, a contradição em êxtase da bem-aventurança e do horror. Ele é a fonte da sensualidade e da crueldade; da procriação e da destruição letal. Essa dupla natureza do deus é um atributo mitológico que encontrou expressão fundamental na tragédia grega.
A partir dos épicos homéricos, tem-se pequeníssimos fragmentos de tragédias escritas por Demódoco. Sua tragédia nos conduz a um de seus sucessores: Arion de Lesbos, que viveu por volta de 600 a.C. na corte do tirano Periandro, de Corinto. Com o apoio e a amizade desse governante amante das artes, Arion encarregou-se de orientar para a via poética os cultos à vegetação da população rural. Organizou os bodes dançarinos dos coros de sátiros para um acompanhamento mimético de seus ditirambos. Assim, ele encontrou uma forma de arte que, originada na poesia, incorporou o canto e a dança e que, duas gerações mais tarde levou, em Atenas, à tragédia e ao teatro.
Psítrato, o sagaz tirano de Atenas que promoveu o comércio e as artes e foi o fundador das Panatenéias e das Grandes Dionisíacas, esforçou-se para emprestar esplendor a essas festividades públicas. Em março do ano de 534 a.C. trouxe de Içaria para Atenas o ator Téspis, e ordenou que ele participasse da Grande Dionisíaca. Téspis, então se colocou à parte do coro como um solista e assim criou o papel do Hypokrites ou respondedor, que mais tarde se tornaria: ator. O Hypokrites apresentava o espetáculo e se envolvia num diálogo com o condutor do coro. Essa inovação, primeiramente não mais do que um embrião dentro do rito do sacrifício, se desenvolveria mais tarde na tragédia, etimologicamente, tragos (bode) e ode (canto).
Nenhum dos presentes na Dionisíaca de 534 a.C. poderia sonhar com o alcance das implicações que este acréscimo inovador de dialogo ao rito traria para a história da civilização e, menos ainda, o próprio Téspis. Até então, ele perambulava pela zona rural com uma pequena trupe de dançarinos e cantores e nos festivais rurais dionisíacos havia oferecido aos camponeses da Ática apresentações de ditirambos e danças de sátiros no estilo de Arion. Supõe-se que viajasse numa carroça de quatro rodas, o “carro de Téspis “, mas esta é apenas uma suposição. O culpado, nesse caso foi Horácio - poeta latino -, que nos conta que Téspis “levava seus poemas num carro” . Mas essa informação diz respeito somente à sua participação na Dionisíaca, e não a algo como uma carroça-palco ambulante.

O ritual da dança coral e do teatro era precedido por uma procissão solene, que vinha da cidade, e terminava na orquestra, dentro do recinto sagrado de Dionísio. O clímax dessa procissão era o carro festivo do deus puxado por dois sátiros, uma espécie de barca sobre rodas (carrus navalis) que carregava a imagem do deus ou, em seu lugar, um ator coroado de folhas de videira. O carro-barca recordava as aventuras marítimas do deus, pois, de acordo com o mito, Dionísio, quando criança fora depositado na praia pelas ondas do mar, dentro de uma arca. Enquanto elemento procriador que abriga o mistério primordial da vida, a água sempre foi um ingrediente importante dos cultos de qualquer povo: são testemunhas disso o culto de Osíris do antigo Egito, o Moisés bíblico e o pescador divino da dama Kagura japonesa, entre tantos outros.
O deus, ou o ator no carro-barca senta-se, dois sátiros flautistas ao lado, e segura folhas de videira nas mãos, conforme os pintores de vasos do início do século VI a.C. mostram em inúmeras variantes. Assim, sem dúvida, Téspis se apresentou na Dionisíaca de Atenas, usando uma máscara de linho com os traços de um rosto humano, visível à distancia, por destacar-se do coro de sátiros, com suas tangas felpudas e cauda de cavalo.
O local da Dionisíaca de Atenas era a encosta da colina do santuário de Dioníso, ao sul da Acrópole. Ali, erguia-se o templo com a velha imagem de madeira do deus, trazida de Eleuteria, um pouco mais abaixo ficava o círculo da dança, e então, num terraço plano, a orquestra. Em seu centro, sobre um pedestal baixo, erguia-se o altar sacrificial (timelê). A presença do deus tornava-se real para os espectadores: Dionísio estava ali com todos eles, no centro, e animador de uma cerimônia solene, religiosa e teatral. Como todas as grandes peças culturais mundo, esta começou com um sacrifício de purificação.

Trágicos Precursores de Ésquilo

Entre a primeira apresentação de Téspis e o primeiro êxito teatral de Ésquilo passaram-se sessenta anos. Foram anos de violentas disputas políticas que puseram um fim ao domínio dos Tiranos, levaram à intervenção dos guerreiros da Maratona na formulação dos assuntos públicos e, com Clistenes, a fundação da Republica de Atenas. Porem, independentemente das revoltas políticas, a nova forma de arte da tragédia ganhou terreno, aperfeiçoou-se e tornou-se a matéria de uma competição teatral nas Dionisíacas.
Paralelamente, porém, talvez mais remotas em suas origens, as peças satíricas desenvolvem-se como uma espécie independente. Vieram do Peloponeso, e seu pioneiro literário foi Pratinas de Fleio. Tida como “a mais difícil tarefa do decoro”, uniu-se à tragédia, atreveu-se a zombar dos sentimentos sublimes, dando-lhes um estilo grotesco. Como parte integrante das Dionisíacas, representava o anticlímax, o retorno relaxante às planícies do demasiado humano. Quão abrupta essa descida deveria ser. Ficava a critério da discrição e da auto-ironia do poeta trágico, pois ele próprio escrevia a sátira como um epílogo para a trilogia trágica que inscrevia no concurso. Frínico de Atenas, que foi discípulo de Téspis, ampliou a função do “ respondedor” (hypokrites), investindo-o de um duplo papel e fazendo-o aparecer com uma máscara masculina e feminina, alternadamente. Isto significava que o ator devia fazer várias entradas e saídas, e a troca de figurino e de máscara, sublinhava uma organização cênica introduzida no decorrer dos cânticos. Um outro passo à frente foi dado peplo mesmo Frínico, realizando uma passagem da declamação para a“ação.